Emoções podem gerar traumas
- Selma Bueno Alves
- 5 de ago.
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As emoções fazem parte da experiência cotidiana e desempenham papel fundamental na adaptação do indivíduo ao ambiente. Ao longo do dia, é necessário autorregular continuamente as respostas emocionais para que o comportamento seja compatível com as demandas de cada contexto.
Os avanços das neurociências afetivas têm demonstrado importantes sobreposições entre as estruturas neurais envolvidas na regulação emocional e aquelas relacionadas à tomada de decisão, memória, atenção, aprendizagem e funções executivas. Essas evidências reforçam que emoção e cognição constituem processos interdependentes, influenciando-se mutuamente.
Entre os processos afetivos, a regulação emocional corresponde ao conjunto de estratégias utilizadas para modificar a intensidade, a duração ou a expressão das emoções, permitindo que elas exerçam uma influência adaptativa sobre o comportamento. Esse processo repercute diretamente no desempenho cognitivo, na qualidade de vida e no desenvolvimento ou manutenção de diferentes psicopatologias.
Para que a regulação emocional ocorra de forma eficiente, o indivíduo precisa reconhecer a situação vivenciada, identificar seu estado emocional e compreender quais são seus objetivos diante daquele contexto. Somente a partir dessa integração torna-se possível ajustar a resposta comportamental de maneira flexível e adequada.
Quando esse processo de autorregulação apresenta falhas, experiências emocionalmente negativas podem tornar-se persistentes e contribuir para o desenvolvimento de transtornos psicológicos, como ansiedade social, transtornos da personalidade e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Nesses casos, as dificuldades não estão relacionadas apenas à intensidade das emoções, mas também à frequência com que ocorrem e à capacidade do indivíduo de regulá-las ao longo da vida.
No cotidiano, habilidades como planejamento, organização, resolução de problemas, monitoramento, controle atencional e autorregulação dependem da integração entre os sistemas emocionais e cognitivos. Quando o equilíbrio emocional é comprometido e a pessoa passa a interpretar inadequadamente o ambiente, sua capacidade de autorregulação diminui, afetando o comportamento e o funcionamento executivo.
As técnicas de neuroimagem permitiram identificar os mecanismos neurais envolvidos na regulação emocional e sua relação com funções executivas, impulsividade, neuroticismo e outros fenômenos psicológicos. Os estudos apontam para a participação de diferentes circuitos neurais, com destaque para o córtex pré-frontal, responsável pelo controle cognitivo das respostas emocionais, em interação com estruturas do sistema límbico.
A percepção e a expressão das emoções dependem principalmente da atuação do sistema límbico, especialmente da amígdala, além do hipotálamo, do sistema dopaminérgico e de outras estruturas cerebrais envolvidas no processamento emocional. Sob a perspectiva neurobiológica, as emoções resultam da integração entre dois componentes complementares: o fisiológico, responsável por preparar o organismo para a ação, e o cognitivo, que possibilita a experiência consciente do estímulo e a interpretação das respostas corporais. Ambos são modulados pelas áreas corticais superiores, que exercem importante papel na regulação emocional.
Embora a cultura influencie normas sociais, crenças e formas de expressão, algumas emoções possuem reconhecimento praticamente universal, como tristeza, medo, raiva, surpresa, repulsa e felicidade. Em contrapartida, emoções como culpa, vergonha, arrogância e admiração apresentam maior influência dos aspectos culturais e sociais.
A capacidade de reconhecer expressões faciais e emoções constitui uma habilidade social essencial, desenvolvida desde os primeiros anos de vida. A correta interpretação dos estados emocionais dos outros fornece pistas importantes para a interação social, favorecendo comportamentos adaptativos e relações interpessoais mais eficazes.
Sob a perspectiva da Gestalt-terapia, a emoção manifesta-se no corpo por meio da respiração, da postura, da tensão muscular, do ritmo da fala e de outras expressões corporais, revelando a forma como o indivíduo está em contato com o mundo naquele momento. Quando uma emoção é reprimida, evitada ou não encontra possibilidade de expressão, tende a permanecer como uma experiência inacabada. Nessas circunstâncias, situações semelhantes podem reativar essa vivência, fazendo com que a emoção emerja novamente com grande intensidade e ocupe o primeiro plano da experiência consciente. A interrupção desse fluxo natural dificulta a autorregulação e favorece a manutenção do sofrimento emocional, tornando necessária a elaboração dessas experiências para que o organismo retome seu equilíbrio e sua capacidade de ajustamento criativo.
De maneira geral, uma pessoa saudável possui recursos emocionais para enfrentar os desafios da vida e lidar com situações difíceis de forma satisfatória. No entanto, quando uma experiência ultrapassa sua capacidade de enfrentamento e ela não encontra recursos internos ou externos para lidar com o que aconteceu, essa vivência pode se tornar um trauma.
O trauma pode surgir após um acontecimento único e intenso, como um acidente, uma violência ou uma perda importante, mas também pode estar relacionado a experiências repetidas ao longo da infância ou da vida. Em comum, essas situações são vividas como uma ameaça significativa à integridade física ou emocional da pessoa, provocando uma sensação de impotência diante do ocorrido.
Quando isso acontece, o organismo ativa automaticamente mecanismos de sobrevivência. O corpo entra em estado de alerta, preparando-se para lutar, fugir ou, quando nenhuma dessas respostas parece possível, congelar. Essas reações são naturais e têm a função de proteger o indivíduo diante do perigo.
Em condições favoráveis, onde a pessoa conta com vínculos seguros e apoio emocional, as respostas tendem a diminuir após o evento, permitindo que o organismo recupere seu equilíbrio. Entretanto, quando a experiência é muito intensa ou não encontra espaço para ser elaborada, o sistema nervoso pode permanecer em estado de alerta ou, ao contrário, apresentar um funcionamento reduzido, levando a sensações de entorpecimento, desconexão emocional ou imobilidade.
Nessas situações, o trauma interfere na capacidade natural de autorregulação do organismo. A pessoa pode ter dificuldade para organizar a lembrança do que aconteceu, percebendo a experiência de forma fragmentada ou confusa. Também pode sentir como se o acontecimento ainda estivesse acontecendo, mesmo que o perigo já tenha passado. Em alguns casos, essa dificuldade faz com que a pessoa tente evitar lembranças, emoções ou situações relacionadas ao trauma.
Quando o trauma ocorre na infância, seus efeitos podem acompanhar o indivíduo ao longo da vida. A criança, ainda não possui recursos suficientes para compreender e elaborar a experiência, podendo permanecer emocionalmente ligada ao acontecimento. Mais tarde, na vida adulta, essa vivência pode reaparecer por meio de sintomas, emoções intensas ou reações automáticas diante de situações que lembram, mesmo de forma indireta, o evento traumático.
Além das reações emocionais e físicas, o trauma pode influenciar a maneira como a pessoa passa a enxergar a si mesma e o mundo. É comum surgirem crenças negativas, como sentir-se incapaz, culpada, responsável pelo ocorrido ou acreditar que não merece ser cuidada ou protegida. Sentimentos de vergonha e culpa são frequentes, especialmente em pessoas que vivenciaram abuso, violência ou situações em que sobreviveram enquanto outras pessoas não.
O trauma também pode se manifestar por meio do corpo. Dores persistentes, alterações no sono, tensão muscular, problemas gastrointestinais, respiratórios, cardiovasculares e até alterações no sistema imunológico podem estar relacionados ao impacto prolongado do estresse traumático. Além disso, podem surgir transtornos como o estresse agudo, o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, ansiedade, isolamento social e abuso de substâncias.
Na psicoterapia, o objetivo não é fazer a pessoa reviver o trauma de forma intensa, mas ajudá-la a entrar em contato com essa experiência de maneira gradual, segura e respeitando seu ritmo. O terapeuta oferece um ambiente de acolhimento para que o indivíduo reconheça suas emoções, perceba como elas se manifestam no corpo e desenvolva novos recursos para lidar com aquilo que antes parecia insuportável.
Ao longo desse processo, a experiência traumática pode ganhar novos significados. Em vez de permanecer presa ao passado, a pessoa passa a integrar essa vivência à sua história, fortalecendo recursos como a autocompaixão, o autoperdão e o autocuidado. Embora o passado não possa ser modificado, é possível transformar a maneira como ele é compreendido e vivido no presente, favorecendo uma relação mais saudável consigo mesma e com o mundo.
No individuo saudável as habilidades para lidar bem com qualquer situação está firmemente presente, ele é capaz de uma resolução satisfatória de acordo com o que deseja, quando faltam recursos para lidar com a situação problema, essa pode se tornar uma situação traumática.
Pode ser um choque, uma ruptura ou algo que aconteceu na infância. É uma situação com extremo significado que ameaça a sua existência, que pode ou não ter sido uma situação de risco. Acontece um bloqueio na capacidade de reação do indivíduo, causando reações bioquímicas que interferem na capacidade de sobrevivência com a super ativação do sistema nervoso.
Em um contexto saudável, onde o indivíduo tem vínculos seguros que lhe dão suporte, as cargas emocionais geradas na relação campo-organismo-meio são significadas como novas, apesar das alterações bioquímicas, uma emergência segura. Quando se enfrenta uma situação ameaçadora a reação é precipitada, provocando reações defensivas instintivas de luta e fuga ou congelamento. Preparado para ação o corpo fica alerta e excitado, promove o aumento do metabolismo deixando esse corpo preparado para uma reação de defesa ou proteção.
A situação traumática interfere na recuperação do seu ambiente interno estável e em equilíbrio dinâmico e natural, gerando várias reações, desorganizando a autorregulação neurológica. A hipoexcitação ou hiperexcitação do sistema límbico provoca entorpecimento e dessensibilização, podendo chegar a analgesia e imobilidade tônica (congelamento).
As situações traumáticas interferem na recuperação natural e equilibrada do ambiente interno. Pode causar desorganização de narrativa de um fato, gerando fragmentação. Incapacidade de compreensão realista dos fatos. Desorientação. Sensação emocional e somática de que o ocorrido ainda não terminou. Sem autossuporte para lidar com o vivido ela dessensibiliza a lembrança ao ocorrido.
A criança traumatizada fica congelada no tempo, sem recursos para lidar com a ameaça, o que pode durar horas, minutos ou segundos. A situação nunca resolvida, emerge no adulto como sintoma. Esse raciocínio pode ser aplicado para todas as faixas etárias. O gatilho fica gravado na memória implícita, envolvendo estados internos e processos automáticos, não sendo baseado em pensamentos. Ficam a deriva no fundo e ressurgem quando as mesmas reações emocionais e físicas da situação traumática emergem.
Chamadas de introjeções disfuncionais em relação ao significado do incidente são outra consequência do trauma. Após um trauma acabamos por formar crenças sobre nós mesmos e sobre o mundo que são super generalizadas, inexatas ou autocríticas. A vergonha se torna frequente, sobretudo nas que viveram situação de abuso sexual ou estupro. Sentem-se diminuídas, indignas, responsáveis, como se em algum nível tivessem provocado a situação. A situação de vergonha e culpa é muito comum também em acidentes onde, os outros morrem e a pessoa sobrevive.
Pessoas que vivenciaram traumas podem manifestar no corpo o que não conseguem expressar, apresentam problemas cardíacos, endócrinos, respiratórios, problemas do sistema autoimune. Os sintomas podem desencadear transtorno do estresse agudo, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e transtorno do estresse pós-traumático tardio , além de depressão, isolamento social, transtorno de ansiedade generalizada (TAG) e abuso de substâncias.
O trauma está no corpo e através do corpo ele pode se revelar, é importante encontrar a experiencia que gerou o trauma, dividir em pedaços menores , doses manejáveis tanto para o contato como para a liberação do comportamento interrompido. O psicoterapeuta vai ajudar o indivíduo a encontrar recursos para entrar nessa situação traumática, entrando em contato com a experiencia com conforto e segurança, localizando-as no corpo, os recursos são atualizados na presença do psicoterapeuta e dos recursos contidos na sessão. A solução encontrada deve ser relevante para a idade em que o trauma ocorreu, daí a importância de trabalhar a autocompaixão, o autoperdão e o autocuidado. O que se altera agora é o olhar sobre o ocorrido, e o devir de ser vivido de outra maneira.
Selma Bueno Alves
CRP 02-22741
Psicóloga Clínica,
Especialista em
Neuropsicologia,
Gestalt-terapia,
Neurociências comportamento e psicopatologia,
Psicologia existencial humanista e Fenomenologica,
Reabilitação Neuropsicológica.
Referências
Enfrentando crises e fechando gestelten / Organização LiLian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumits. - 1 ed. - São Paulo : Summus, 2020 Gestalt- Terapia Fundamentos e práticas ; 7
Gestlat-Terapia : por outros caminhos. Jorge Ponciano Ribeiro, /1 ed. – São Paulo : Summus, 2022 ; 280 p. ; 24 cm




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